David Lynch e meditação

O consagrado cineasta David Lynch (Veludo Azul, Coração Selvagem, Cidade dos Sonhos, Império dos Sonhos) esteve recentemente no Brasil para divulgar seu novo livro. Sempre fui um grande fã desse diretor e seu último filme (inland Empire) é um dos melhores que assisti nos últimos tempos.

Muita gente questiona a obra de Lynch, dizendo que ele é louco, que produz filmes que só ele entende, que os filmes são sem sentido. A única vez que eu pensei isso foi na primeira vez que assisti Cidade dos Sonhos. Na época eu morava na Itália, assisti o filme em italiano. Havia três pessoas além de mim na sala do cinema. Quando o filme terminou eu olhei para o lado com cara de paisagem e perguntei cheio de vergonha ao homem que lá estava: “Você entendeu alguma coisa?” Ele respondeu, sem palavras, com um sorriso. Durante a noite seguinte tive vários sonhos e elementos do filme apareciam na minha cabeça.

Aos poucos fui pesquisando sobre a obra do diretor e comecei a entender que ele criou uma nova forma de fazer cinema, da mesma maneira que um dia Picasso criou uma nova forma de pintar quadros. Picasso também foi massacrado em sua época. Os filmes de Lynch trazem abstrações, símbolos, sensações, fotografias. Não existe cronologia racional.

O tempo é uma ilusão que cada um de nós cria. David Lynch destrói essa ilusão. Tudo fica atemporal, como nos sonhos. Eu não sabia qual era a base do trabalho do diretor até ler seu novo livro. Impressionantemente, o livro é extremamente simples, direto e claro. Mostra um autor lúcido, responsável e muito, muito amável.

As últimas palavras do livro me lembraram as palavras de S. N. Goenka no curso de meditação Vipassana:

“Que todos sejam felizes. Que todos estejam livres de doenças. Que a prosperidade seja vista em todos os lugares. Que ninguém sofra. Paz.”

Alguns trechos do livro Em Águas Profundas que eu gostaria de ressaltar:

  • A raiva, a depressão e o sofrimento são muito bonitos nos enredos, mas venenosos para o cineasta ou o artista.
  • Para criar é preciso ter energia e clareza. É preciso estar apto a pescar idéias.
  • Embora alguém possa dizer que não entende de música, a maioria a vivencia e há de concordar que ela é uma abstração. Não é preciso traduzi-la com palavras. Basta ouvi-la.
  • Se você começar a pensar em como seduzir os outros, é melhor parar. Só deve fazer aquilo que se ama; é assim que nos abrimos para o inesperado.
  • Não há nada que garanta que a meditação o levará ao sucesso. Mas com a meditação sua maneira de encarar os acontecimentos muda, e tudo se torna melhor.
  • Quando alguém trabalha com medo, produz 1% do que poderia. O trabalho deve ser divertido. Em vez de instaurar o medo, as empresas deveriam oferecer todos os meios para expandir a energia e a consciência.
  • Trabalho em equipe é junto e feliz. É preciso desenvolver a capacidade de se focar nas coisas como um grupo. Essa capacidade se desenvolve quando as pessoas começam a meditar e mergulhar fundo.
  • O artista precisa entender o conflito e o estresse. Essas coisas lhe instigam idéias. Mas estresse demais imobiliza a criatividade. Podemos entender o conflito sem necessariamente viver dentro dele. Quanto mais o artista sofre, menos criativo ele fica.

Fazer software é uma atividade humana. Para se tornar um grande hacker é preciso desenvolver, paralelamente às habilidades técnicas, habilidades criativas e artísticas. É preciso saber lidar com o estresse. A meditação é uma prática eficaz nesse sentido. Ela ajuda a manter a mente equilibrada, pronta para criar coisas maravilhosas.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *