Arte e Ciência da Computação – de volta aos primórdios

Muitas pessoas me perguntaram qual foi o resultado da minha defesa de mestrado e
qual avaliação que a banca fez. Nós tínhamos uma câmera filmando a defesa, mas a fita acabou (#fail) justamente um pouco depois de a banca começar a argumentar sobre a dissertação. Somente as pessoas que estavam presentes tiveram o privilégio de saber qual foi o impacto que essa defesa teve no Instituto de Matemática e Estatística da USP. Digo isso não para me gabar do meu trabalho, mas porque o fato foi realmente EMOCIONANTE e, sem brincadeira, teve gente que até chorou!

Vou tentar resumir brevemente algumas coisas. Provavelmente não vou lembrar de tudo, mas acho que conseguirei saciar a curiosidade de alguns. Quanto a apresentação da defesa em si, só recebi elogios. Mas logo que essa apresentação que vocês assistiram terminou, comecei a ser literalmente massacrado pelo meu texto na dissertação. A banca não perdoou e criticou muito o meu trabalho. “Eu procurei ouvi-los e, quer saber, ajudou muito!” – tudo que eu aprendi durante quatro anos estudando padrões para introduzir novas ideias serviu demais nesse dia. Eles eram os céticos, eu tinha de ouvi-los.
O principal ponto levantado era o de que a minha dissertação estava mais para livro do que para tese de mestrado. Segundo a banca, aquele não era um trabalho científico. Agora eu vou contar incrível, que poucas pessoas sabem:
Um dos membros da banca era suplente de outro professor que não veio. É regra escolher um suplente para cada membro da banca, em caso de enfermidade ou impossibilidade de o membro escolhido comparecer. Na verdade, depois da defesa, eu fiquei sabendo que o membro da banca que não veio não estava doente ou teve outro compromisso. Ele não veio simplesmente porque ele considerou o meu trabalho uma afronta e que ele nunca aprovaria um absurdo daqueles. Mas tudo bem, o suplente que veio no lugar dele veio e, no final, aprovou o trabalho.
Mas como é que a banca afinal aprovou o trabalho, se ele foi tão criticado? Aí vem a parte mais emocionante daquele dia. Vamos recapitular: a banca tinha 3 membros – um deles era o meu orientador, o segundo era um professor escolhido e o terceiro era o suplente do professor que não veio por não gostar do trabalho. Além desses 3, um quarto professor estava presente na defesa. Era o suplente do segundo professor. Ele quis, por livre vontade, assistir a defesa. Depois que os três integrantes oficiais da banca falaram, o quarto professor pediu a palavra e começou a refutar todos os argumentos contra que tinham sido levantados pela banca. Ele me defendeu!
O resultado final é que o trabalho foi aprovado, com algumas ressalvas. Na visão da banca, eu precisaria tornar a dissertação mais científica, fazer afirmações fortes somente com referências fortes. A minha grande indagação é que boa parte da dissertação era justamente questionar a falta de humanidade na computação. Um texto só é científico se ele é sério, objetivo, chato, impessoal, em linguagem de máquina? O meu texto não tinha nada disso. Eu tomei (propositadamente) várias liberdades, usei uma linguagem mais informal, quebrei regras, usei toda subjetividade que eu podia. Agora eu teria que mudá-lo para ser o que eles queriam. Claro que eu não ia abrir mão do meu ponto.
Um membro da banca me perguntou:
– Você não acha que está sendo muito pretensioso quando diz que tem o objetivo de “fazer com que as ideias dessa dissertação se disseminem para que outros realizem novos trabalhos científicos e tecnológicos em benefício da humanidade.”?
O professor que me defendeu disse que eu estava certíssimo e que esse trabalho realmente continha elementos que poderiam beneficiar as pessoas. Ponto.

Outra indagação foi:
– Porque você não foi defender essa tese na Filosofia ou na Faculdade de Educação?
Como assim??? Tudo que eu estava falando ali dizia respeito a COMPUTAÇÃO! Sei que a pergunta do professor na foi maldosa, mas eu não tive organização suficiente na hora para explicar para ele que eu estava falando da falta de HUMANIDADE dentro da COMPUTAÇÃO. Como diz Peter Brook: “Nos dias de hoje, a tragédia da Arte é que nela não há Ciência; e a tragédia da Ciência é que nela não há emoção”.
No final, refiz algumas partes, tentando realmente buscar referências para dar força a tudo aquilo que eu estava falando, mas mantendo a minha “linha artística” de expressar as ideias. Tomei o cuidado de explicar, logo no início do texto, que ele era diferente do habitual, para que leitores desavisados não se sentissem ofendidos. Assim que meu orientador revisar a versão final da tese eu coloco ela aqui para que todos possam ler. Não prometo que ela é tão divertida quanto a apresentação de defesa, mas acho que ela está bem fácil de ler (pelo menos algumas pessoas que não entendem nada de computação leram e me disseram que gostaram).

O importante é que eu fiquei muito empolgado com toda essa repercussão da minha defesa. Vou tentar dedicar um tempo fazendo mais paródias de computação, criar outras peças como essa (acreditem, deu trabalho!). Acho que vale muito a pena, porque sei que esse tipo de conteúdo enriquece muito as pessoas, elas realmente se envolvem mais num assunto quando ativamos o lado direito do cérebro.
No meu próximo post falarei sobre todas as referências que encontrei relacionando Ciência e Computação com Arte. Só para dar uma ideia do que eu quero dizer, Donald Knuth, que escreveu um dos livros mais famosos da Computação: The Art of Computer Programming,
afirmou que a programação deixou de ser uma arte para tornar-se ciência por uma simples razão: começamos a chamá-la de “ciência da computação”
OBS: as fotos foram tiradas durante a minha viagem de lua-de-mel. Em breve, publicarei algumas no meu picasa.
OBS2: faltou a explicação do título desse post. Na verdade a verdadeira explicação virá no próximo post. Aguardem!

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