Arte e Ciência da Computação – de volta aos primórdios – Parte 2

Unir arte com a Ciência da Computação não é algo muito comum, daí a dificuldade de se encontrar trabalhos que relacionam esses dois temas aparentemente desconexos. Trazemos, então, algumas referências de autores que já citaram de alguma forma como a ciência e a computação se relacionam com a arte.
Como um dos objetivos desse blog é mostrar os benefícios da arte para o desenvolvimento de software, vamos fazer uma pequena reflexão sobre o que seria o conceito de arte e qual as relações entre arte e a ciência. Nos primórdios das Comunicações da ACM, em 1959, os editores destacaram o seguinte objetivo para os periódicos da ACM [0]:

“Se a programação de computadores irá se tornar uma área importante na pesquisa e desenvolvimento da computação, uma transição da programação de arte para ciência deve ser feita.”
Donald Knuth, que escreveu um dos livros mais famosos da Computação: The Art of Computer Programming [1], afirmou que a programação deixou de ser uma arte para tornar-se ciência por uma simples razão: começamos a chamá-la de “ciência da computação” [2].
A palavra arte vem do Latin ars, que significa “habilidade”. A palavra Grega correspondente seria τεχνη, raíz das palavras “tecnologia” e “técnica”. Existiram épocas em que a humanidade não distinguia arte de ciência. As pessoas na idade média ensinavam as artes ciências liberais, que eram as mesmas que as sete ciências liberais (gramática, retórica, lógica, aritmética, geometria, musica e astronomia), das quais três têm bastante relação com a computação de hoje.
Knuth ainda diz [2] que:
“ciência seria o conhecimento que compreendemos tão bem que conseguimos ensiná-lo a um computador; se você não compreende algo totalmente, então seria uma arte lidar um isso (…) Existe uma distância enorme entre o que os computadores podem fazer e o que as pessoas podem fazer. As visões incríveis que as pessoas têm quando falam, escutam, criam ou mesmo quando programam estão longe do alcance da ciência; quase tudo ainda é uma arte (…) A Ciência sem a Arte é suscetível a se tornar ineficaz; a Arte sem a Ciência é suscetível a se tornar imprecisa (…) Precisamos combinar ciência com valores artísticos se quisermos progredir de verdade”
Existe na literatura vários casos que misturam (e confundem) as palavras “arte” e “ciência”. Por exemplo, existe o livro The Art of Piano Playing [3] e The Art of Playing the Piano Forte, mas também podemos encontrar The Science of Pianoforte Technique [4], ou ainda The Art of Piano Playing: a Scientific Approach [5]. Podemos citar também The Science of Being and Art of Living [6], livro relacionado a meditação, tópico já tratado algumas vezes nesse blog.
Alvin Toffler disse [7]:
“A sociedade precisa de todos os tipos de habilidades que não são somente cognitivas; elas são emocionais, elas são afetivas. Você não pode dirigir uma sociedade somente com dados e computadores.”
Peter Brook, um famoso teatrólogo também argumenta [8] que
Nos dias de hoje, a tragédia da Arte é que nela não há Ciência; e a tragédia da Ciência é que nela não há emoção.”
Albert Eisntein tinha a opinião de que “depois que um certo nível de conhecimento técnico é atingido, ciência e arte tendem a coalescer em estética, plasticidade e forma. Os maiores cientistas são artistas também”. Em A Short Introduction to The Art of Programming [9], Dijkstra diz que programação envolve bom gosto e estilo e que um professor não deve ensinar um aluno a escrever um determinado programa, mas ajudar os pupilos a encontrarem seus próprios estilos.
Em The Mythical Man-Month: Essays on Software Engineering [10], Frederick Phillips Brooks compara o pensamento de um programador ao de um poeta, dizendo que ambos trabalham ligeiramente afastamentados de coisas que são pensamento puro. Richard P. Gabriel afirma que todo programador deveria ser treinado como artista [11]. Paul Graham cita várias semelhanças entre programação e pintura [12]. Já que computação é uma ciência e uma arte ao mesmo tempo, deveríamos incluir mais arte no dia-a-dia de alunos de computação, como sugere o Prof. Valdemar Setzer em Um Antídoto Contra o Pensamento Computacional [13]. A famosa astronauta Mae Jemison também concorda que deveríamos unir as ciências com as artes [14].
Em The Art in Computer Programming, Dave Thomas e Andy Hunt mostram como programar é muito mais do que lidar com máquinas. É preciso conhecer o ser humano e interpretar suas vontades, indo além do que é pedido pelo usuário. Precisamos fazer as perguntas certas para o cliente descobrir o que ele realmente precisa. Isso é um trabalho de arte.
Pete McBreen em Software Craftsmanship – The New Imperative Design [15] vê o desenvolvimento de software como habilidade artesanal que mistura sutilmente arte, ciência e engenharia, com o objetivo de entregar sistemas efetivos. Robert C. Martin (também conhecido na comunidade de software como “Uncle Bob”) também afirma em Clean Code: A Handbook of Agile Software Craftsmanship [16] que, em resumo, “um programador que escreve código limpo é um artista que, através de uma série de transformações, leva uma tela em branco a um sistema elegantemente codificado.”
Como podemos perceber, existem muitos trabalhos que mostram algumas relações entre Arte e Ciência da Computação. Os benefícios da união dessas duas disciplinas aparentemente distintas poderiam talvez significar um avanço, tanto para a Ciência, quanto para a Arte, e consequentemente, para a humanidade.
Para mim, uma grande prova de que devemos nos ligar mais a arte do que estamos atualmente é a repercussão positiva da minha defesa de mestrado. Algumas pessoas podem pensar que não têm talento ou habilidade para realizar uma apresentação como a minha. Eu diria que essas pessoas estão completamente equivocadas. O resultado final do meu mestrado não tem a ver com talento, mas muito mais com trabalho e dedicação.
Não me considero um grande ator. Mas o que eu estudei e pratiquei desde quando comecei no teatro (o vídeo abaixo, feito em 2004, foi minha 2a. peça).

Tudo bem, nessa época eu já sabia tocar violão. Mas isso porque eu comecei a estudar violão com 14 anos.
Todos os autores citados nesse artigo falam de arte e todos são grandes nomes da Computação e da Ciência. Tenho certeza que todo mundo tem alguma arte favorita e acho que cada um deveria investir tempo nessa arte. Uns gostam de tocar, outros de escrever, outros de desenhar. Não importa qual seja a modalidade, tempo precisa ser investido. O resultado desse investimento repercutirá não só para o bem do seu trabalho como programador, mas também para sua vida.
Bibliografia
[0] Walter F. Bauer, Mario L. Juncosa, and Alan J. Perlis. ACM publication policies and
plans
. Journal of the ACM (JACM), 6(2):121-122, 1959.
[1] Donald E. Knuth. The Art of Computer Programming. Addison-Wesley, 1997.
[2] Donald E. Knuth. Computer programming as an art. Commun. ACM, 17(12):667-673,

1974.

[3] Heinrich Neuhaus and K.A. Leibovitch. The Art of Piano Playing. Kahn & Averill
London, 1993.
[4] Thomas Fielden. The Science of Pianoforte Technique. Macmillan London, 1934.
[5] George A. Kochevitsky. The Art of Piano Playing: a Scientic Approach. Alfred
Publishing, 1967.
[6] Maharishi Mahesh Yogi. The Science of Being and Art of Living. Allied Publishers,
1963.
[7] Thomas Ciszek. A Framework for the Development of Social Linking Theory. 2005.
[8] Yoshi Oida and Lorna Marshall. The Invisible Actor. Routledge, 1998.
[9] Edsger W. Dijkstra. A Short Introduction to The Art of Programming. Technische
Hogeschool Eindhoven, 1971.
[10] Frederick Phillips Brooks. The Mythical Man-Month: Essays on Software Engineering.
Addison-Wesley, 1995.
[12] Paul Graham. Hackers & Painters: Big Ideas from the Computer Age. O’Reilly Media,
Inc., 2004.
[13] Valdemar W. Setzer. Um Antdoto Contra o Pensamento Computacional, 2006.
[15] Pete McBreen. Software Craftsmanship: The New Imperative. Addison-Wesley Professional, 2002.
[16] Robert C. Martin, Clean Code: A Handbook of Agile Software Craftsmanship, Prentice Hall PTR, 2008.

3 Comments Arte e Ciência da Computação – de volta aos primórdios – Parte 2

  1. Roger Leite

    Por acaso caí em seu blog e comecei a ler o post. Apesar dele ser de Julho, achei muito estranho não haver comentários … resumindo:

    Simplesmente sensacional! Concordo plenamente com o tema "Programar é arte", sem contar com as ótimas referências citadas. Parabéns pelo texto! Isto é uma prova "viva" que podemos encontrar conteúdo de qualidade na internet.

    Sucesso!

  2. Pingback: ArtSCI – um encontro da Arte com a Ciência - AgileAndArt

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