Vipassana e Times auto-organizados

No início de janeiro, estive num retiro de meditação Vipassana. Eu já havia participado do curso 3 vezes. São 80 meditadores, 40 homens e 40 mulheres. Os cursos são ministrados num centro que fica perto da cidade de Miguel Pereira, no interior do Rio de Janeiro. Os alunos não pagam nada para participar. O sistema sobrevive graças a doações de antigos meditadores, que continuam contribuindo para que outras pessoas tenham os mesmos benefícios que eles tiveram. Além das doações, outro fator que é vital para o sucesso da Vipassana é o trabalho dos voluntários (também chamados de servidores). Enquanto os alunos ficam dedicados exclusivamente ao aprendizado da técnica de meditação, voluntários organizam todo o ambiente para que ele seja o mais confortável e ideal para o meditador. Os voluntários preparam as refeições, cuidam da limpeza e ficam a total disposição para resolver qualquer problema que algum aluno possa vir a enfrentar.

Nessa minha 4ª vez no curso, decidi fazer parte do time de voluntários. Eu aprendi muitas coisas legais nesses dias e gostaria de compartilhar com todos essa experiência.

O primeiro fato que me chamou muito atenção no grupo de servidores é que ele é um exemplo perfeito de time auto-organizado. Não existe uma hierarquia pré-determinada. O que existe (e o que de fato faz com que equipes auto-organizadas funcionem) são:

  • Regras simples que todos procuram seguir e, principalmente,
  • Um objetivo comum muito claro. No caso, o de fazer fazer com que todos os alunos tenham o melhor curso de suas vidas.

O trabalho do servidor se resume principalmente no preparo das refeições. Servimos sempre um café da manhã as 6:30, um almoço as 11:00 e um lanche da tarde as 17:00. Para que tudo fique pronto no horário, precisamos começar o preparo sempre com uma boa antecedência. Além disso, temos um livro de receitas preparado pela organização do curso. Com um pouco de conhecimento prévio de cozinha, as dicas do livro e uma boa dose de colaboração, tudo sai perfeito.


O mais engraçado é que ninguém precisa dizer para ninguém o que precisa ser feito. Todos sabem das regras básicas:

  • Sujou, lavou
  • Depois de usar, coloque de volta no lugar
  • Divida as tarefas, cada um faz uma coisa, segundo suas habilidades.
  • Faça antes o que é mais importante

Eu fiquei muito bom em descascar e cortar legumes! Parece piada, mas depois de 10 dias eu estava adorando lavar, descascar e cortar cenouras, abobrinhas, batatas, cebolas, beterrabas, berinjelas, inhames (até isso tinha).


O time de servidores tinha 7 pessoas fixas e mais alguns servidores em tempo parcial. Éramos 4 homens e 3 mulheres. O Eduardo era o nosso consultor de assuntos “legumísticos”. Por ser engenheiro agrônomo, ele entendia tudo de conservação e armazenamento de alimentos. A Inny fazia sempre o chá e o leite dos alunos, além de ajudar a lavar a louça. A tia Sônia, por ter muita prática na cozinha e ser mãe de uma Cheff, coordenava o fogão e solicitava o pré-preparo para nós. O Samuel entendia tudo de alimentos orgânicos. Ele era o rei da salada, molhos e grande conhecedor do aproveitamento de restos de alimentos, como chá com a casca do abacaxi, fermento de casca de maça e o delicioso bosht polonês (beterraba com iogurte). O Nilton, além de ser um ótimo companheiro de quarto, lavava louça melhor do que a Brastemp da minha mãe. O cara era uma máquina. A Tia Sílvia, por ser uma aluna muito antiga, conhecia muito as manhas e estava sempre nos aconselhando, além de ser responsável pelas refeições do professor do curso. O Mateus, também aluno antigo, era o nosso guru! Ele fazia todo o café da manhã para 100 pessoas praticamente sozinho.


Entre os servidores, existe sempre dois gerentes, um para os homens e outro para as mulheres (porque no curso, as pessoas ficam separadas por sexo). Os gerentes não têm superioridade hierárquica em relação a ninguém (aliás, nem sei porque chamam de gerente…) – o papel deles é estar pronto para atender as necessidades dos alunos e a levar questões mais complexas para o professor. Os alunos não podem se comunicar entre si, a única pessoa com a qual eles podem falar é o gerente. Cada curso tem um gerente diferente. Dessa vez foi o Michael para os homens e a Sarah para as mulheres. Ser gerente é uma grande desafio, pois o curso não é fácil e atender a demanda de 40 alunos é bem puxado.


No final de cada dia, os servidores se reúnem com o professor para uma reunião de 15 minutos (qualquer semelhança é mera coincidência). Mas nem todos falam, apenas aqueles que têm algum assunto relevante e que mereça discussão.

Alguns pontos de grande aprendizado numa experiência dessas:

  • Aprender a trabalhar em grupo
  • Reconhecer as habilidades de cada pessoa
  • Respeitar as limitações do outro e ser paciente
  • Seguir e respeitar regras
  • Aprender a servir ao próximo sem a necessidade de receber algo em troca
  • Aprender a ouvir críticas e opiniões adversas, muitas vezes contrárias a sua
  • Reconhecer as condições de trabalho algumas vezes não ideais e fazer o melhor de si
  • Prestar atenção nas nossas próprias ações, se olhar, se observar
  • Saber se perdoar quando fizer algo errado
  • Saber perdoar o outro quando o outro fizer algo errado
  • Viver na rotina e ainda assim ser feliz e fazer as coisas com amor
  • Aprender a viver em paz e a desejar a paz e a harmonia para o outro, independente de quem seja ou do que tenha feito.
  • Aprender que é possível trabalhar junto sem uma hierarquia rígida
  • Aprender que não precisamos de processos e regras complexas para fazer algo bom
  • Simplicidade existe. A técnica de Vipassana é para mim o maior exemplo de Simplicidade.

Agradeço a todos os companheiros servidores pelas enormes lições que eles me ensinaram. Eu desejo que todas as pessoas possam um dia participar de um curso desses, aprender coisas boas como eu aprendi e levar essas coisas para a sua vida e serem mais felizes. Que todos sejam felizes!

Mais algumas informações:

Palestra sobre Vipassana na USP
Palestra sobre Meditação
Meditação e Agilidade
Vipassana, XP e Mudanças sem Medo
Site Vipassana

8 Comments Vipassana e Times auto-organizados

  1. Anonymous

    Daniel, Parabéns.
    Que pela descrição sobre servidores de Vipassana,
    quem ler seu blog vai correr para servir no proximo curso.
    Grato por Ser um grande companheiro de trabalho fisico e Espiritual.

    Nilton Alcantara

  2. Silvia

    Daniel, fiquei muito emocionada com o seu relato, nunca tinha visto uma avaliação tão precisa, concisa e ao mesmo tempo profunda do que representa a experiência do servidor em um curso de Vipassana. Espero ter outras oportunidades de servir com você em Dhamma Santi, de onde acabo de voltar após participar do encerramento (Dia de Metta) de mais um curso lotado. Abraço afetuoso, Silvia

  3. Anonymous

    Fiquei muito emocionada com seu relato! Que muitas pessoas, ao lerem seu relato, se sintam motivadas a passar por esta experiencia!
    Abracos
    Inny

  4. Anonymous

    Acho que o seu relato é um ótimo serviço ao Dhamma, meu caro.
    As pessoas precisam conhecer isso.
    Que elas se inspirem com esse relato.
    A Silvia tem razão, ele é muito preciso.

    Que os serviços no Dhamma Santi se tornem cada vez mais harmônicos e que nós estejamos cada vez mais confiantes no Dhamma.
    Matheus

  5. Semadar

    Oi Daniel, tudo bem?
    Me escrevi no curso de julho, estou bem ansiosa e feliz pois o curso é tudo que venho buscando faz algum tempo.
    Tenho um apenas um receio: o esforço físico. Li o relato de uma jornalista que sofreu bastante com dores na coluna. Não tenho nenhum problema de coluna (não q saiba) mas como sou sedentária, estou sentindo muito receio em relaçaõ a este ponto. Tu poderias me indicar algum exercicio que eu possa ir fazendo para me preparar?

    Muito grata.

    Um grande abraço pra ti

    Semadar

  6. Daniel Cukier

    Olá Semadar.

    Todas as pessoas que fazem o curso pela primeira vez tem bastante dificuldade. Aliás, o curso é difícil, mesmo para quem já pratica há tempos. Eu, por exemplo, estive no meu 5o. curso em março, e foi o mais difícil de todos. A dor física as vezes é mais forte, as vezes mais fraca. O curso vai te ensinar a lidar com essa dor, independente de como ela seja. Fique tranquila, você vai conseguir! :-)

    Caso ache realmente que vai ser muito difícil, tente fazer uns alongamentos e caminhadas nesse período que antecede o curso. Sinceramente, eu acho que fará pouca diferença, mas se você se sente mais segura, faça isso.

    O curso é maravilhoso! Você verá. Desejo que dê tudo certo para você e que continue praticando depois que voltar.

    Um abraço

    Daniel

  7. Amy

    Fiquei muito emocionada com seu relato! Que muitas pessoas, ao lerem seu relato, se sintam motivadas a passar por esta experiencia!AbracosInny

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