15 Perguntas e Respostas sobre Ciência da Computação


Nas últimas semanas troquei algumas conversas com amigos que, coincidentemente, tiveram o mesmo tema. Paralelamente a isso, fui indicado por uns professores do IME a responder um questionário que ajudará alunos ingressantes na Universidade a escolherem o curso que possivelmente definirá todo o resto de uma vida. Esse questionário será respondido por algumas pessoas e existe um grupo que está encarregado de colher as informações e colocar no site do IME-USP. Decidi tornar a resposta do meu questionário pública, para aqueles que querem saber um pouco mais sobre o que é Ciência da Computação, tanto no nível acadêmico quanto profissional. Me coloco a disposição para responder perguntas e ouvir sugestões.

1 – O que o motivou a fazer Ciência da Computação?

Eu sempre tive interesse por Computação. Comecei cedo na área, quando ganhei meu primeiro 386 em 1992, isso sem contar o TK3000 que eu ganhei quando era criança e o MSX de um amigo, com o qual eu passava horas digitando códigos em BASIC que na época se comprava em banca de jornal. Na minha primeira tentativa de entrar na faculdade, eu prestei Engenharia Mecatrônica. Eu acho que naquela eu era muito influenciado pelo que meus pais falavam e eles comentavam muito sobre essa tal de Mecatrônica. Eu prestei sem nem saber direito o que era e tive a grande sorte de não ter entrado :-)
No ano seguinte, fiz cursinho e estudei melhor quais eram as faculdades que existiam e o que elas ofereciam. Achei que Ciência da Computação se encaixava exatamente no que eu gostava de fazer: software.

2 – O que o levou na época a escolher o BCC da USP?

Estava dentro dos meus objetivos fazer uma faculdade pública e gratuita. Não queria mais que meus pais tivessem gastos com meus estudos e me sentia capaz de entrar numa Universidade pública boa. Prestei UNESP, UNICAMP e USP, além do Mackenzie. A única que eu não entrei, por muito pouco, foi a UNICAMP. Mas mesmo se tivesse entrado, acho que escolheria a USP, não por eu considerar a melhor (acho que UNICAMP e USP são equivalentes), mas pelo fato de eu já morar em São Paulo.

3 – Como você avaliaria sua formação no BCC?

A formação do BCC é excelente. Durante todo o tempo que fiz BCC eu também trabalhava. De manhã ia para as aulas e a tarde ia para o trabalho. Inclusive, tranquei o curso durante 1 ano e meio para morar e trabalhar na Itália. Por essa razão, não tenho como avaliar a formação do BCC de forma isolada da minha formação profissional. Eu aprendia muitas coisas, tanto na faculdade quanto na empresa e acho que os dois ambientes foram importantes para mim.

Mas se eu pudesse avaliar o BCC isoladamente, diria que a formação é básica e sólida. Com isso, quero dizer que o BCC não vai te dar o peixe, vai te ensinar a pescar. No mundo da computação, isso significa que o BCC vai te ensinar a como ir atrás das soluções, como estudar, como pesquisar, como trocar experiências com colegas e professores. Isso é muito mais importante do que aprender essa ou aquela ferramenta ou linguagem.

Além disso, o nível de exigência das disciplinas no BCC costumam ser bastante altos. Claro que têm alguns professores mais fáceis e outros mais difíceis, mas no geral é sempre necessário estudar muito e se dedicar tanto para as provas quanto para os trabalhos (principalmente os Exercícios Programas, que era a parte mais legal do curso).

No geral, aprendi muitas coisas no BCC. Acredito que desenvolvi muito o meu pensamento lógico abstrato e isso é fundamental para quem deseja ser um bom desenvolvedor de software. Matérias como Álgebra II, Análise de Algoritmos, Grafos, Autômatos, etc. servem de base para mim até hoje. Durante o curso, as vezes temos a sensação de que não usaremos nada daquilo na vida profissional, mas isso não é verdade. Pode ser que não usemos exatamente o que aprendemos, mas a estrutura de pensamento que desenvolvemos serve para sempre.

4 – O curso é preparatório para o mercado de trabalho?

Sem dúvida, o curso prepara não só para o mercado, como também para a academia. Sempre tive a impressão de que o BCC tivesse uma preferência pela formação acadêmica dos alunos, mas isso não significa que ao sair de lá a pessoa não se torne um bom profissional. Algo que eu acho que falta um pouco no curso é um pouco de formação na área de humanas. O curso é bem focado nas matérias exatas, porém o mercado de trabalho exige algumas habilidades humanas como relacionamento com os colegas, trabalho em equipes, lidar com clientes e chefia. Algumas disciplinas como “Leitura Dramática” ajudam nesse aprendizado humano, por isso recomendo que os alunos, mesmo que não tenham muito gosto pela área de humanas, que cursem essas matérias e aproveitem ao máximo para desenvolver esse outro lado.

5 – Como foi sua inserção no mercado de trabalho?

Como eu disse, eu já trabalhava mesmo antes de entrar no BCC. Mas do que ouvi falar de todos os colegas que conheci durante o curso, ninguém teve a mínima dificuldade de arrumar bons empregos. Você sai do BCC e as empresas vão te buscar na porta de saída, o nosso mercado é muito carente de pessoas com boa formação.

6 – Atualmente, quais são as dificuldades iniciais enfrentadas por quem está se inserindo no mercado?

Acho que a maior dificuldade está mesmo ligada ao lado humano. O ambiente corporativo nem sempre é tão amigável e acolhedor quanto a universidade. Existe concorrência entre profissionais, existe ganância e existe alguma incompetência. Lidar com isso não é fácil. As pessoas da área da computação normalmente (mas não sempre) têm dificuldades de expressar sentimentos e lidar com questões humanas. Eu diria que numa faculdade de computação você trabalha muito a cabeça, mas que na vida lá fora você precisará trabalhar e manter um corpo saudável para suportar tanto pensamento lógico abstrato e lidar com as emoções que o mercado de trabalho impõe.

7 – Quais as diferenças que você identifica no mercado de trabalho, entre quem se formou no BCC da USP e em outros cursos similares de outras universidades?

Essa é uma questão muito delicada e polêmica. Não podemos generalizar nada. Tenho colegas que nem sequer têm diplomas universitário e que são excelentes profissionais. Também já vi alguns formados na USP que eram profissionais medianos. Eu acho que o que define um bom profissional vai além de qual universidade ele se formou. Apesar de não existir uma regra absoluta, existe a estatística. É mais comum pessoas formadas no BCC ou cursos de mesmo nível crescerem mais rápido profissionalmente. Toda dificuldade que o aluno passou durante o curso servirá de base para enfrentar as dificuldades na vida profissional e normalmente ele se sairá melhor.

Acredito que a formação profissional depende muito mais do esforço e interesse do aluno em se desenvolver. Um aluno que terminou o BCC depois de 4 anos, mas que só se esforçava minimamente para tirar 5 e ser aprovado nas matérias provavelmente será menos competente do que um que cursou uma universidade de qualidade inferior, mas que se esforçou e tirou 10 em tudo que fez.

8 – Em processos seletivos e em entrevistas de emprego, como pesou o fato de você ter se formado no BCC da USP?

Sem dúvida, ter graduação no BCC do IME tem muito peso. Se a avaliação numa entrevista de 2 profissionais for exatamente a mesma, mas um deles tiver BCC e o outro não, quase certamente a empresa ficará com o do BCC.

9 – Como é a rotina do profissional que trabalha com a Ciência da Computação na prática?

Depende muito da área em que esse profissional decide se especializar. A Ciência da Computação é uma disciplina muito abrangente. Você pode decidir se especializar em áreas bem diferentes como imagens, sons, algoritmos, otimização ou sistemas distribuídos. Até existe uma intersecção entre os ramos da computação, mas cada área escolhida tem muitas particularidades. Eu escolhi a área de sistemas. Minha rotina sempre foi desenvolver software para usuário final, no começo para desktops e depois para Web. Fiz também alguns poucos projetos para dispositivos móveis.

A rotina desse tipo de trabalho é interagir com os clientes ou usuários do sistema, entender as suas necessidades e transformar tarefas manuais e repetitivas em soluções de software amigáveis e robustas. Depois de entender o que o cliente deseja, vem a parte técnica de desenhar o projeto (modelagem), escrever código, escrever testes, reescrever código antigo, etc. Desde 2001 comecei a estudar métodos ágeis e utilizo os ensinamentos desses métodos para ser mais produtivo.

Como trabalho com sistemas para Internet, conheci um pouco sobre cada tecnologia existente. A tecnologia muda muito e temos o dever de ler muito e estarmos atualizado com as melhores linguagens e práticas de programação. Já trabalhei com Visual Basic, Java, PHP, RubyOnRails. Também é necessário um certo conhecimento com HTML, CSS e boas práticas de design visual.

10 – Em termos práticos, qual a diferença entre os cursos de Ciência da
Computação, Engenharia da Computação e Sistema de Informação? Para quais tarefas cada profissional estaria mais apto em uma empresa?

Até onde eu sei, Ciência da Computação tem um foco maior no desenvolvimento de software e a Engenharia também lida com Hardware (a parte física da computação). Hoje em dia essas áreas se sobrepõem muito, mas em linhas gerais, o engenheiro irá projetar o chip, os componentes ou os circuitos de um computador e o Cientista erá escrever o software que rodará e utilizará da melhor maneira os recursos desse computador. A área de Sistema de Informação eu conheço pouco, mas entendo que também é desenvolvimento de software, mas com foco em sistemas corporativos ou de automação. Acho que a diferença entre SI e BCC é que a formação do BCC é mais teórica, enquanto de SI lida com questões mais práticas do dia-a-dia do profissional. Acho que SI é uma formação mais de curto prazo, enquanto de a Engenharia e o BCC são formações mais básicas e de longo prazo.

11 – Qual a remuneração esperada de um recém formado em Ciência da Computação?

Novamente depende muito da área e do profissional. Os salários variam de R$3000 a R$4500 para os recém formados.

12 – Você percebeu uma evolução salarial compatível com a sua capacidade, formação e experiência profissional?

Com certeza tive uma grande evolução salarial. Mas o salário não é a única medida de sucesso profissional. Já tive momentos em que escolhi ganhar um salário menor diante de um desafio ou oportunidade de aprendizado que eu considerava importante para minha carreira. Reconhecimento por parte das pessoas e da comunidade, formação de redes de relacionamentos, benefícios como viagens, apoio por parte da chefia a iniciativas pessoais também são medidas para a saúde e sucesso profissional. Hoje talvez não ganhe o melhor salário do mercado, mas acho que sou respeitado e tenho uma qualidade de vida muito boa.

13 – Você enxerga reais perspectivas de evoluir no mercado de trabalho?
Como foi sua estratégia para construir sua carreira?

O mercado de tecnologia oferece muitas oportunidades, talvez mais do que qualquer outro mercado atualmente. Nossa área ainda tem muito para evoluir. Claro que tudo vai sempre depender do esforço e vontade do profissional.

Acho importante diversificar a carreira, procurando atuar em algumas áreas diferentes, com tecnologias diferentes e fazendo coisas diferentes. Acho muito importante também tentar um tempo fora do Brasil, para conhecer outras culturas e estilos de vida.

Uma estratégia que eu sempre usei foi tentar estar sempre disposto a ajudar quem precisa de ajuda e buscar ajuda de quem já está mais evoluído. Trocar experiências sempre. Aprender com os mais antigos e ensinar os mais novos.

Também é muito importante que o profissional não feche portas ao sair de uma empresa ou instituição. O nosso mercado é pequeno o suficiente para todos se conhecerem e terem boas (ou más) recomendações para dar para os outros sobre você. Devemos fazer sempre o melhor e saber que o mundo dá voltas.

14 – Que conselhos você daria para um jovem que pretende prestar vestibular na área de TI?

Estude, estude e estude. Aprenda a gostar de estudar. Aprenda a aprender. Aprenda a ensinar os outros. Goste do que você faz e faça o que você gosta. Não pense que a faculdade será só alegrias. Muitas das coisas que aprendemos na faculdade podem não parecer úteis, mas na maior parte das vezes são. Quando a gente entra na faculdade a gente acha que sabe muito mais do que realmente sabemos e, quando saímos, percebemos que sabemos muito menos do que gostaríamos. Tem muita gente pensando e trabalhando há muito tempo para compor o currículo de um curso. Gente com muita experiência. Temos que confiar que essas pessoas sabem o que estão fazendo. Caso não concordemos com algo, devemos conversar pacificamente e lutar para que as coisas melhorem. Se revoltar não resolve nada. A melhor saída é trabalhar.

A faculdade é um período muito importante na nossa vida. Devemos tentar ao máximo nos divertir e sermos feliz com as escolhas que fizemos. Caso venhamos a perceber que fizemos a escolha errada, temos que ser adultos e assumirmos nosso erro, mudando o rumo para algo que realmente acreditamos.

15 – Atualmente, você observa uma queda de interesse dos jovens pela área
de TI? (Caso a resposta seja afirmativa) Qual a razão desse fenômeno?

Sinceramente, não ouço falar de queda de interesse pela área de TI. Se isso realmente tiver acontecendo, posso dar um palpite totalmente arbitrário sobre as razões para esse fenômeno. Hoje a tecnologia já faz parte do dia-a-dia das pessoas. É algo que está em toda parte. Antigamente era algo misterioso, um conhecimento para poucos, o que acabava atraindo mais pessoas. Hoje, por ser algo comum, perdeu-se interesse. Um outro palpite seria o fato de os cursos terem a tradição de serem difíceis e os jovens de hoje estão fugindo das dificuldades. Mas, como eu disse, são palpites pessoais…

12 Comments 15 Perguntas e Respostas sobre Ciência da Computação

  1. Arthur Garcia

    Vejo que a moda hoje é fazer faculdade de informática. Conheço muitas pessoas que escolheram essa área como profissão e ao menos se deram o trabalho de saber como é a área, como é a grade curricular da universidade, essas coisas…

    Um dos cursos que tem mais desistência são os da área da informática.

    Faço sistemas de informação e gosto muito do curso. Antes de entrar no curso conversei com profissionais da área, alunos que já estavam praticamente formados. Levantei todo tipo de informação para saber se o curso combinava com meu perfil.

    Fica aí minha dica!
    Abraços!

  2. Pingback: Computer Science Introduction for teenagers - AgileAndArt

  3. RAMIRO

    Olá! Muito obrigado por postar suas 15 perguntas e respostas. Acredito que ajudaram a dar mais força para mim e e meus amigos da UFPI.

  4. kassio

    acho q a principal falta de interesse hj dos jovens entrar em uma IES BCC e por conta da profissão estar praticamente prostituida ha pessoas que se dizem ser profissionais sem almenos ter adentrado em uma faculdade. Ha tambem aqueles que sao formados e nao sao tao bons como aqueles que nem cursaram uma faculdade, enfim acho que o justo e criar um conselho que regulamente a profissão que distingua quem e profissional e quem nao e profissional, acho que isso seria o correto e tirar da reta toda essa concorrencia prostituida que temos hj no pais. Gosto muito da área de T.I hj se eu fosse fazer faculdade faria BCC. Mas nao acho justo estudadar 4 anos e receber o memo salario de quem ao menos pisou dentro de uma faculdade. Obs: não quero desmerecer ninguem mas acho que é muita injustiça com os profissionais que ralam na facul enquantos outros so ficam em forum pegando tutoriais e se dizem ser analista.

  5. Luis Marcos Leite

    Daniel,

    Sou Luis Marcos Leite, do blog O Gestor – Especialista em Tecnologia da Informação. Achei muito boa sua entrevista e inseri um link para cá no artigo ” Profissionais TI: Cientista da Computação”, em http://ogestor.eti.br/profissionais-ti-cientista-da-computacao/ , para ajudar meus leitores que buscam mais informações sobre curso de Ciências da Computação. Espero que goste do artigo e caso seja possível, convido-o a deixar sua opinião lá nos comentários. Grato.

  6. Pingback: Profissionais TI: Cientista da Computação | Tecnologia da Informação - blog O Gestor

  7. SERGIO

    Daniel

    Sua entrevista foi bem elaborada e esclarecedora. Ajudou-me a tirar algumas duvidas que existia.

    Grato.

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