O Hype que só atrapalha

O tema startups e empreendedorismo virou moda. Tanto é que já virou até tema de novela na Globo. O fato de virar moda e de muito se falar sobre o assunto em si é até bom. Antes ninguém sabia o que era uma Startup. Esse hype estimula o empreendedorismo e o surgimento de empresas com potencial de inovação. Novos empreendedores nascem e se manifestam. As pessoas têm a oportunidade de aprenderem umas com as outras. Começa a se formar uma comunidade que se ajuda e se auto-motiva.

Junto com esse mar de possibilidades positivas para o empreendedor, surge também muita porcaria. Quando a onda vem forte e arrebenta, o que sobra é espuma, que só faz volume e não tem força alguma a não ser para obscurecer a nossa visão. Não me refiro apenas ao oportunismo ou mal caráter, mas também à incompetência, seja pela desinformação, seja pela falta de visão sistêmica ou pensamento holístico (e diria até falta de um certo altruísmo). Talvez tudo que exista de ruim em um ecossistema de Startups seja uma mistura de um pouco de cada uma dessas coisas.

Um bom exemplo são algumas organizações que vêem a onda passando e fazem qualquer coisa para surfar nela, sem nenhum contribuição real para os empreendedores. Só ocupam espaço, em prol da auto-promoção, desperdiçando dinheiro e energia em objetivos vazios ou inexistentes.

Exemplos de distorção

Um caso recente foi o Hackaton organizado pelo banco Itaú. Com tantos milhões a disposição, o banco ofereceu como prêmio R$10K ao primeiro colocado, além da patética visita ao seu datacenter como prêmio ao 2o. colocado. Me digam, empreendedores: o que lhes interessa visitar o datacenter de um banco pra empresa de vocês? Mais ainda: vocês acham que R$10mil faz alguma diferença para o sucesso da sua startup? Se o banco quisesse realmente ajudar o empreendedor, criaria uma linha de crédito a juros zero, facilitaria o burocrático processo de abertura de contas para empresas, isentando startups de pagar as abusivas tarifas que cobram. Mas sabemos que essas ofertas não são tão interessantes para o lucro do banco, além de envolver mudanças de políticas internas e grandes investimentos. Envolvem tomar mais risco e se envolver a longo prazo com o crescimento do ecossistema.

Se quiser, não precisa nem ir tão longe no tema bancário: empresas novas (Startups), com menos de um ano de vida, têm dificuldade de abrir conta em banco. O processo é demorado. Se pagam as contas de nuvem no cartão de crédito, esquece cartão corporativo: vai demorar meses pro banco liberar um cartão de crédito pra você.

As vezes fico com a impressão que a coisa acontece assim:

Um belo dia, alguém do marketing de uma grande empresa acorda e pensa :”Empreendedorismo está na moda, precisamos fazer algo. Já sei! vamos fazer uma competição, juntar um monte de empreendedor, fazer um auê, tirar um monte de fotos e publicar em nossas redes sociais que nós apoiamos as startups.   Como o assunto está na moda, um monte de gente vai gostar da gente e comprar nosso produto ou serviço”.

Posso parecer exagerado ao afirmar isso, mas as vezes a coisa é tão mal feita que não vejo outra explicação. O mesmo acontece com algumas iniciativas do governo. Gostaria que essas instituições soubessem que nós empreendedores não queremos esmola. Se querem ajudar de verdade, terão que trabalhar mudanças profundas: redução da carga tributária, menos burocracia para abrir e fechar empresas, afrouxamento das leis trabalhistas, além do essencial investimento em infra-estrutura. Fiquei extremamente chateado quando soube que a empresa de amigos meus (todos brasileiros) decidiu fabricar e lançar seu produto tecnologicamente revolucionário no mercado americano, por razões de custos e falta de infra aqui. Eles me disseram que o produto final custaria o dobro se fosse fabricado aqui no Brasil.

Fujam das competições de Startups

Uma outra situação ridícula aconteceu quando participei de uma competição de startups promovida por uma aceleradora européia, com apoio de uma grande empresa de lá, que possui operação aqui no Brasil. Eles nos informaram que éramos uma das 15 empresas escolhidas para apresentar a uma banca final, das quais 5 iriam para a Europa com tudo pago para o programa de aceleração, que consistia em mentirosa e apresentação para investidores europeus. Bacana. Só que depois que as 15 empresas apresentaram seus projetos, eles disseram que havia mais 15 empresas para avaliar. Quatro seriam selecionadas.

Pode parecer besteira a diferença de chance entre 5 de 15 (1/3) e 4 de 30 (1/7.5), mas para o empreendedor essa pode ser a diferença entre decidir ou não perder tempo numa competição dessas. E sabemos que o tempo é o bem mais precioso do empreendedor de risco. Mas o desrespeito não foi só esse. A seleção das 30 empresas foi muito mal feita. Havia empresas lá que nem eram startups, como por exemplo uma que tinha sede em 3 cidades e mais de 80 funcionários, tendo a Vale do Rio Doce como um dos clientes. Os startupers olhavam uns para os outros e tinham que segurar a risada, de desespero ou de vergonha alheia. Claramente a organização do evento não selecionou as empresas ou, se o fez, não trabalhou direito. No fim, tudo parecia um circo: fotógrafo para registrar o presidente da companhia junto com os pobres empreendedores, que só tiveram como consolo a chance de conhecer outros empreendedores bacanas e trocar cartões. Nesse dia eu me senti um índio recebendo espelhinho em troca de toda a Mata Atlântica.

Esse episódio serviu para confirmar que essas competições fazem muito mais o empreendedor perder seu precioso tempo, do que trazer algum benefício real para o negócio. Claro que existem exceções, mas o conselho geral que eu dou para empreendedores é: fujam dessas competições!

Numa competição, as várias Startups são muito diferentes e atuam em mercados diversos, estão cada uma em um estágio de maturidade. Não há como comparar e, por isso, não há como dizer quem é melhor ou pior. Mais ainda, escolher um único vencedor significa escolher uma dezena de perdedores, o que pode desestimular os empreendedores por um motivo fictício. Eu já fiz parte de banca julgadora em evento de startup e posso dizer: o juri não sabe quase nada, não tem quase nenhum critério e o resultado beira a aleatoriedade.

Síndrome do herói e um choque de realidade

Todos os dias somos massacrados pela mídia especializada com casos de empreendedores de sucesso, grandes feitos, vendas milionárias e pessoas estão salvando o mundo. Nos fazem acreditar que seremos ricos, andaremos de Porches e que no final do arco-íris tem um pote de ouro. O que normalmente a mídia não conta é o caminho que esses empreendedores fizeram para chegar até o ápice. Ou, se contam, não dão a devida importância. A maior verdade é que sempre depois do ápice vem a queda. Ninguém gosta de falar da queda, do fracasso, da vida real. Os empreendedores de verdade ficam confusos com tanta ilusão. Ficam com a impressão de que “todo mundo está se dando bem, só eu que estou me lascando aqui”. Isso é perigosíssimo, pode levar a depressão e até suicídio, como alguns casos já relatados.

Outro dia eu estava discutindo com um grande amigo, CEO de uma aceleradora. Contei para ele que recebemos um investimento em nossa Startup, mas não divulgamos a notícia para ninguém. Meu sócio e eu decidimos que não tinha vantagem nenhuma em ficar espalhando essa notícia. O CEO da aceleradora disse que empreendedores e investidores podem se “animar” ao ver que fomos investidos e isso pode fomentar o ecossistema. Até concordo com o fator psicológico positivo que a notícia de investimento gera, mas ainda assim fico preocupado com os fatores psicológicos negativos. Será que vão ficar achando que agora estamos ricos (o que não é nem perto da verdade)? Será que desconfiam quanto tivemos que abrir mão do controle da empresa por esse investimento? O que esse investimento de fato significa para a empresa e para os nossos clientes?

Todo investimento tem uma história por traz. Normalmente essa história é longa, cheia de detalhes e quase sempre desinteressante. Ninguém quer contar a história inteira. Basta a manchete: “Fulano recebeu X milhões de Sicrano”. Depois disso vêm as fantasias que cada um cria dentro de si, distorcendo a realidade do ecossistema.

Algumas pessoas ficam super famosas (incluo nessa lista pessoas que conheço, amigos e queridos), embaixadores do ecossistema, empreendedores jovens, bonitos, sorridentes, sempre animados e engajados em ajudar milhares de empreendedores a salvarem o mundo. Viram heróis, aparecem em capas de revistas e jornais. Não perceberam que, na verdade, são também um produto criado pela própria mídia para vender mais. São sempre pessoas extremamente talentosas que acabam desperdiçando o talento em troca vaidade e um sonho do sucesso realizado.

Mais pé no chão

A jornada empreendedora é árdua, inclui altos e baixos, envolve dor e prazer. Precisamos aprender a perceber a natureza passageira das conquistas e dos fracassos e olhar para as coisas de forma mais realista e com o pé no chão. Precisamos entender o que há por trás das notícias de capa, precisamos refletir sobre nossas relações dentro do ecossistema. Temos que ser ao mesmo tempo serenos e corajosos, humildes e generosos. Temos que ter clareza e senso crítico para diferenciar o que é nocivo do que é benéfico dentro do ecossistema. As distorções inventadas estão fadadas a desilusão e muita gente pode sofrer mais do que precisa. Talvez seja hora de cada um colocar o dedo na consciência e refletir sobre o seu papel no ecossistema. O que eu posso mudar em mim e que vai beneficiar os outros? – fica a pergunta.

1 Comment O Hype que só atrapalha

  1. Eduardo Pittol

    Muito bom o texto. Parabéns. Eu concordo que existem muitas pessoas e empresas que aproveitam para surfar a crista da onda sem entender que negócio é esse. Quanto a pessoas que tentam surfar, caem logo. Não tem suporte para se manter. Eu sou um exemplo disso. Quando conheci o termo, quis ter uma. Dei com a cara no muro. Hoje estou participando de comunidades, conhecendo mentores e interagindo com quem quer empreender também. Vi que é necessário muito conhecimento para tocar meu negócio, hoje estou em busca disso. Meu medo são as empresas. Aquelas que vendem um sonho, dizem ser apoiador do movimento, se passam por agentes do bem e abandona a comunidade. Não estão preocupados com um ambiente sustentável, gerando desconfiança por pessoas que não estão envolvidos com a causa.

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